Você chega em casa e ninguém vem te receber. Vai ao banheiro e para na porta, porque ele sempre entrava junto. Olha para o canto do sofá e o canto está vazio. Na hora do passeio, a mão vai sozinha buscar a guia.
Os dias passam e a casa continua quieta demais. E ainda tem alguém que pergunta, sem maldade nenhuma: "mas era só um gato?"
Se isso aconteceu com você, esse texto é para você. O que você sente tem nome, tem explicação e não tem nada de exagero.
Neste artigo
Por que a perda de um bichinho dói tanto
Ele estava ali todos os dias. A sua manhã tinha a hora da comida, o passeio, o barulho das patas no chão. A noite tinha o corpo dele encostado no seu. Para muita gente, o pet é a companhia com quem mais se passa o dia.
Para quem mora sozinha, ele era companhia 24 horas. Quando ele morre, você perde o bichinho e perde junto a rotina inteira que girava em volta dele.
Quem nunca teve um animal em casa dificilmente imagina o tamanho do espaço que ele ocupava. Por isso a reação de fora costuma ser pequena perto do que acontece por dentro.
Luto não reconhecido: o nome do que você está vivendo
Existe um nome para esse tipo de dor: luto não reconhecido, também chamado de luto não franqueado ou não autorizado. O conceito foi proposto pelo pesquisador Kenneth Doka, em 1989, para falar da dor de quem perde alguém importante e não recebe da sociedade o direito de sofrer por isso.
No caso do pet, isso aparece em frases que todo mundo já ouviu:
- "Era só um bicho."
- "Compra outro."
- "Já faz uma semana, né?"
Tem gente que precisa mentir no trabalho. Diz que está doente, porque falar "meu gato morreu e eu não tenho condição de trabalhar hoje" parece não ser motivo suficiente. E quem escuta isso algumas vezes aprende a esconder.
O que a pessoa perde, nesse caso, é duplo: perde o bichinho e perde o direito de ficar mal por isso.
Uma curiosidade: em alguns lugares a lei já foi na frente. Em Santa Catarina, desde 2018, cães e gatos são reconhecidos em lei como seres sencientes, sujeitos de direito, que sentem dor e angústia (Lei 17.526/2018, que alterou a Lei 17.485/2018). Se a lei reconhece que eles sentem, não faz sentido você precisar se explicar por sentir a falta deles.
O que a pesquisa já mostra
Em janeiro de 2026, o pesquisador Philip Hyland, da Universidade de Maynooth, na Irlanda, publicou na revista PLOS One um estudo com 975 adultos do Reino Unido, comparando o luto por pessoas e por pets.
- Entre quem tinha perdido uma pessoa e também um bichinho, 21% disse que a morte do animal foi a que mais doeu.
- Cerca de 7,5% de quem perdeu um pet chegou a um quadro de luto prolongado, bem parecido com o de quem perdeu um amigo próximo (7,8%) ou um irmão (8,9%).
- Os sintomas foram os mesmos, tanto para a perda de uma pessoa quanto para a de um animal.
Os manuais de diagnóstico de hoje só reconhecem esse quadro depois da morte de uma pessoa, e o autor defende que isso seja revisto. É um único estudo, feito em um país, então vale como um sinal importante e não como a última palavra. Mas ele confirma o que muita gente já sabia por dentro.
O que é normal sentir
Nas primeiras semanas, é comum:
- Ver o bichinho pelos cantos da casa, ou ouvir o barulho dele
- Acordar na hora do passeio ou da comida
- Sentir culpa: "e se eu tivesse levado antes ao veterinário?"
- Chorar do nada, no meio do dia
- Dormir mal, perder o apetite, ter dificuldade de se concentrar
- Não conseguir tirar a coleira, a caminha ou a tigela do lugar
Tudo isso faz parte. Não existe prazo certo, e cada pessoa tem o seu ritmo, com dias melhores e dias piores.
O que muita gente tenta e não resolve
A maioria tenta seguir o dia como se nada tivesse acontecido: volta ao trabalho, enche a agenda, evita falar no assunto para não incomodar ninguém. Funciona por algumas horas. À noite, a casa continua quieta.
E tem um erro que quase todo mundo comete sem perceber: usar contra si mesma as palavras que usaram contra você. "Era só um bicho, eu não devia estar assim." Quando você se julga desse jeito, a dor continua do mesmo tamanho, e agora você sofre sozinha e ainda se cobra por sofrer.
O que ajuda de verdade
- Chame de luto. Dar o nome certo já tira um peso: você não está exagerando.
- Sem prazo para a coleira, a caminha e a tigela. Há quem leve semanas para guardar. Um dia, na hora certa, você vai saber. Guardar uma lembrança em vez de jogar tudo fora também vale.
- Faça uma despedida do seu jeito. Uma carta, uma foto emoldurada, um cantinho com a coleira, uma planta no lugar onde ele gostava de deitar.
- Fale com quem entende. Alguém que também já perdeu um bichinho sabe o que dizer, e quase sempre sabe o que não dizer.
- Mantenha o básico. Comer, dormir e sair de casa um pouco, mesmo sem vontade.
- Se há crianças em casa, deixe que chorem e conte a verdade com palavras simples. Para uma criança, o cachorro que esteve ali desde que ela nasceu pode ser a primeira grande perda.
- Se há outro animal na casa, observe. Mudança de rotina mexe com eles também, e se ele parar de comer vale chamar o veterinário.
Quando procurar ajuda profissional
Vale buscar apoio de um profissional de saúde quando, depois de semanas:
- Você continua sem conseguir dormir, comer ou trabalhar
- A culpa não afrouxa
- O pensamento fica preso na última cena, sem sair
Pode ser um psicólogo, um psiquiatra ou um terapeuta de confiança, como eu. O importante é ser alguém que leve o luto de pet a sério, como um luto de verdade.
Se a dor ficar grande demais para carregar sozinha, procure ajuda agora. No Brasil, o CVV atende 24 horas, de graça, pelo telefone 188. Você também pode ir ao pronto atendimento mais próximo.
Onde a 7Healings pode ajudar
Eu sou terapeuta integrativa e trabalho com a 7Healings, online. Com quem perdeu um bichinho, costumam aparecer a cena da última noite que volta, a decisão que ficou pesando e a culpa que não sai, além da saudade.
A 7Healings olha para essas memórias que ficaram guardadas e ajuda a ressignificar o que ficou, para que a saudade possa existir sem pesar tanto. Em geral são 3 a 4 sessões, e cada pessoa no seu tempo. Ela caminha junto com o acompanhamento psicológico ou médico, quando ele é necessário, e não no lugar dele.
E se o outro animal da casa ficou diferente depois da perda, eu atendo cães, gatos e cavalos também. Veja como funciona a terapia para animais.
O luto é essa fase em que a vida continua, mas nunca mais é a mesma. E tudo bem. Ele viveu com você, e isso fica.
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Roseli Franceschini Terapeuta integrativa, método 7Healings. Mais de 350 pessoas atendidas desde 2022, 100% online, no Brasil e na Europa. Atende também cães, gatos e cavalos. Conheça a minha história e formação.
Fontes citadas:
Hyland, P. No pets allowed: Evidence that prolonged grief disorder can occur following the death of a pet. PLOS One, 14 de janeiro de 2026. Universidade de Maynooth, Irlanda. Ler o estudo.
Doka, K. J. Disenfranchised Grief: Recognizing Hidden Sorrow, 1989.
Santa Catarina. Lei 17.526, de 28 de maio de 2018, que altera a Lei 12.854/2003 (Código Estadual de Proteção aos Animais). Ler a lei.
Se esse luto está pesando, me conta
Me chama no WhatsApp. Eu ou a minha secretária te respondemos, e eu te digo com franqueza se é algo em que eu posso ajudar.
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